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Um nome pouco comum no cenário eleitoral brasileiro passou a fazer parte das discussões sobre as eleições de 2026: “Bancada da Macumba”.
A expressão foi adotada por um grupo de seis candidatos do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) que disputam vagas na Câmara dos Deputados em cinco estados e no Distrito Federal. A articulação foi lançada oficialmente em agosto, em São Paulo, com a proposta de ampliar a participação de pessoas ligadas às religiões afro-brasileiras nos espaços de decisão política.
O grupo é formado por Adriano Fiúza, do Distrito Federal; Mãe Su de Nanã, de São Paulo; Renato Fonseca, de Pernambuco; Wesley Mendes e Mãe Bernadete de Oxóssi, da Bahia; e Ariane Magalhães, do Rio de Janeiro. Todos são apresentados como candidatos à Câmara dos Deputados nas eleições deste ano.
Por que esse nome?
A escolha da expressão “Bancada da Macumba” chama atenção porque a palavra “macumba” foi historicamente utilizada de diferentes maneiras e, em muitos contextos, de forma pejorativa para se referir às religiões afro-brasileiras.
Os integrantes da articulação afirmam ter escolhido o termo justamente como uma forma de ressignificação e de afirmação política.
Segundo o grupo, a expressão foi historicamente associada à criminalização e à perseguição de práticas religiosas de origem africana e, agora, passa a ser utilizada como identidade política.
A escolha do nome, portanto, faz parte da própria mensagem que os candidatos pretendem transmitir.
O que o grupo pretende?
Entre as pautas apresentadas estão a defesa da liberdade religiosa, o combate ao racismo religioso e a ampliação da representação dos povos de terreiro nas instituições políticas.
A proposta também envolve a participação nas discussões sobre políticas públicas, orçamento, cultura, educação, direitos humanos e igualdade racial.
Os integrantes defendem que comunidades religiosas afro-brasileiras não sejam lembradas apenas em ações culturais ou em momentos específicos, mas também participem diretamente das discussões sobre leis e políticas públicas que afetam suas comunidades.
O candidato pernambucano Renato Fonseca, apontado como um dos idealizadores da articulação, afirmou que a iniciativa pretende tratar a participação política como uma questão que vai além da religião, envolvendo também temas sociais e de cidadania.
É uma bancada do Congresso?
Ainda não.
O nome pode causar confusão, mas a chamada “Bancada da Macumba” não é, neste momento, uma bancada parlamentar formada dentro da Câmara dos Deputados.
Trata-se de uma articulação eleitoral formada por candidaturas. Para que exista efetivamente uma bancada parlamentar, seria necessário que candidatos do grupo fossem eleitos e passassem a atuar conjuntamente no Legislativo.
A iniciativa, portanto, deve ser acompanhada durante o processo eleitoral para saber quantos dos integrantes chegarão ao Congresso e como será construída sua atuação parlamentar.
Por que a representação política importa?
Deputados federais participam diretamente da elaboração de leis, da fiscalização do Poder Executivo e da discussão do orçamento federal.
Isso significa que questões relacionadas à liberdade religiosa, educação, cultura, patrimônio, igualdade racial e direitos de comunidades tradicionais podem chegar ao Congresso por diferentes caminhos.
A representação política não precisa significar que todos os integrantes de uma comunidade pensem da mesma maneira.
Em uma democracia, diferentes grupos podem apresentar suas demandas, disputar eleições e buscar apoio dos eleitores.
Também é possível que pessoas que não pertençam a determinada religião defendam políticas relacionadas à liberdade de crença e ao combate à discriminação.
E o eleitor?
A criação da “Bancada da Macumba” coloca no debate eleitoral uma questão que pode ser observada de maneira mais ampla: qual é o espaço das diferentes comunidades religiosas na política brasileira?
O eleitor não precisa escolher um candidato apenas por sua religião.
Também pode analisar propostas, trajetória, partido, posicionamentos, atuação política e compromissos apresentados durante a campanha.
Para quem acompanha o universo religioso afro-brasileiro, a eleição pode ser uma oportunidade para perguntar aos candidatos de diferentes partidos o que pensam sobre temas como liberdade religiosa, combate ao racismo, proteção do patrimônio cultural e políticas públicas para comunidades tradicionais.
Uma articulação ligada a um partido
Outro ponto importante para entender a iniciativa é sua relação partidária.
A “Bancada da Macumba” foi lançada por candidaturas do PSOL, e a própria legenda divulga a articulação em seus canais oficiais. Portanto, não se trata de uma iniciativa que represente todas as religiões afro-brasileiras, todos os praticantes ou todas as organizações do segmento.
Essa distinção é importante porque diferentes pessoas e comunidades podem ter posições políticas distintas.
Religião e posicionamento partidário não são sinônimos.
Uma pessoa pode pertencer a uma determinada religião e votar em diferentes partidos. Da mesma forma, uma pauta de interesse das comunidades religiosas pode ser defendida por parlamentares que não pertencem a essas religiões.
O que acontece depois das eleições?
Essa é uma das questões que ainda precisarão ser respondidas.
Caso os candidatos sejam eleitos, será possível observar se a articulação continuará funcionando de maneira conjunta, quais propostas serão apresentadas e como os parlamentares irão se posicionar nas votações.
Até lá, a “Bancada da Macumba” representa uma iniciativa eleitoral que coloca no centro do debate uma questão pouco discutida: a presença de pessoas ligadas às religiões afro-brasileiras nos espaços formais de poder.
Mais do que avaliar a iniciativa por sua sigla partidária, o eleitor pode acompanhar suas propostas e compará-las com as apresentadas por outros candidatos.
Em uma eleição, informação também é uma forma de participação.
E, para além da religião de cada candidato, permanece uma pergunta que vale para qualquer eleitor: quem estará representando os cidadãos quando as decisões que afetam seus direitos forem tomadas?
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