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Redação e Edição: Gislaine Vicente
Dentre os muitos artistas e escritores, Jorge Amado foi um dos expoentes da cultura brasileira. Natural da Bahia, sempre escreveu sobre seu Estado e os acontecimentos em sua terra natal – o dia a dia nas fazendas de cacau; homens, mulheres e o amor entre eles e até sobre o Carnaval resenhou algumas coisas. Porém, o que mais fascinou o escritor foi o Candomblé. Sempre abordando os temas regionais em suas obras, Jorge Amado teve nesta religião afrobrasileira, o pano de fundo ou plano principal em muitas de suas estórias ( ou histórias). Protagonistas que respondiam por nomes de orixás, pais, mães-de-santo e filhos de santo, compondo o seu cotidiano. O escritor sempre expressou respeito pelos fundamentos candomblecistas, pelas Iyalorixás e Babalorixás, amigos e confidentes.
Filho de João Amado de Faria e de D. Eulália Leal, Jorge nasceu no dia 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, Distrito de Itabuna, na Bahia. Além dele, o casal teve mais três filhos, Jofre, Joelson e James. Por conta de uma epidemia de varíola, a família foi obrigada a deixar Ilhéus e seguir para Itajuípe para morar na Fazenda Taranga. Lá, seu pai continuou os trabalhos na lavoura de cacau. Alfabetizado pela mãe, Jorge Amado, que recebeu o “dom” da escrita desde pequeno. Desde o início, fazia referências em suas obras ao Candomblé,que estava restrito a Salvador e a cidades do Recôncavo Baiano até a década de 1960 - seus romances se tornaram uma forma de divulgação decisiva da religião pelo mundo. No Ilê Ogunjá, Jorge Amado recebeu o seu primeiro cargo dentro da religião ainda moço, o de Ogã, entregue a ele por Pai Procópio. Já no Ilê Opó Afonjá, fundado por Mãe Aninha Obá Byi( Eugênia Ana dos Santos), Jorge Amado ocupou uma das 12 cadeiras do conselho dos Obás de Xangô.
O escritor que morreu em agosto de 2001, pouco antes de completar 89 anos, ao lado de Pierre Fatumbi Verger (francês), fotógrafo e etnógrafo; do artista plástico Carybé, argentino naturalizado brasileiro, e o cantor/compositor Dorival Caymmi (todos já falecidos) formaram uma irmandade em torno da mistura que é a Bahia, em forma de homenagem aos Orixás, valorizando a religiosidade afrobrasileira no nosso país.
Exílios e a grande atuação política
Comunista convicto, Jorge Amado teve grande atuação política
-ideológica, temas sempre presentes na maioria de suas obras. Preso pela primeira vez no Rio de Janeiro, em 1936, por motivos políticos, acusado de participar do chamado “Intentona Comunista”, retornou ao Rio no ano de 1939, para exercer intensa atividade política, em decorrência das torturas de presos e a desarticulação do Partido Comunista.
Em 1941, escreve um livro sobre Luís Carlos Prestes, com o intuito de iniciar uma campanha pela sua anistia. Depois, viaja para o Uruguai e Argentina; já em 1942, a obra é vendida clandestinamente no Brasil. Jorge Amado volta ao país, mas é preso ao desembarcar em Porto Alegre. De lá é enviado para o Rio de Janeiro, e em seguida para Salvador. Viveu exilado na Argentina e no Uruguai (1941 a 1942), em Paris (1948 a 1950) e em Praga (1951 a 1952).
Exú – O protetor da Fundação Casa de Jorge Amado
A Fundação Casa Jorge Amado foi inaugurada em março de 1987. Desde então, a instituição passou a desenvolver um vasto trabalho de preservação e divulgação da obra do escritor Jorge Amado. O símbolo da Casa é o Orixá Exú, desenhado pelo ilustre artista Carybé. Há afirmações do autor que justificam a escolha da entidade: “Exú é um deus dos mais importantes nas religiões fetichistas; se elas admitissem a existência do diabo, ele seria o diabo teria dito o escritor.
De acordo com a cultura iorubá, Exu é uma divindade travessa, que adora pregar peças e, principalmente, não admite censura.
Premiações e Jorge Amado em diversas línguas
No Brasil, Jorge Amado recebeu os seguintes prêmios: Prêmio Nacional de Romance do Instituto Nacional do Livro (1959); Prêmio Graça Aranha (1959); Prêmio Paula Brito (1959); Prêmio Jabuti (1959 e 1970); Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, do Pen Club do Brasil (1959); Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1959); Troféu Intelectual do Ano (1970); Prêmio Fernando Chinaglia, Rio de Janeiro (1982); Prêmio Nestlé de Literatura, São Paulo (1982); Prêmio Brasília de Literatura — Conjunto de Obras (1982); Prêmio Moinho Santista de Literatura (1984); prêmio BNB de Literatura (1985).
Ele também recebeu diversos títulos honoríficos, nacionais e estrangeiros, entre eles: Comendador da Ordem Andrés Bello, Venezuela (1977); Commandeur de Ordre des Arts et des Lettres, da França (1979); Commandeur de la Légion ; Honneur (1984); Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia (1980) e do Ceará (1981); Doutor Honoris Causa pela Universidade Degli Studi de Bari, Itália (1980) e pela Universidade de Lumière Lyon II, França (1987). Grão Mestre da Ordem do Rio Branco (1985) e Comendador da Ordem do Congresso Nacional, Brasília (1986).
Seus livros foram traduzidos em cerca de 55 países, em 49 idiomas, existindo também exemplares em Braille e em fitas gravadas para deficientes visuais. Segundo a Fundação Casa de Jorge Amado, existem registros oficiais de traduções de obras do escritor para os seguintes idiomas: azerbaidjano, albanês, alemão, árabe, armênio, búlgaro, catalão, chinês, coreano, croata, dinamarquês, eslovaco, esloveno, espanhol, esperanto, estoniano, finlandês, francês, galego, georgiano, grego, guarani, hebraico, holandês, húngaro, iídiche, inglês, islandês, italiano, japonês, letão, lituano, macedônio, moldávio, mongol, norueguês, persa, polonês, romeno, russo, sérvio, sueco, tailandês, tcheco, turco, turcumênio, ucraniano e vietnamita.
Essas traduções foram publicadas nos respectivos países: Albânia, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Armênia, Áustria, Azerbaidjão, Bulgária, Canadá, Chile, China, Colômbia, Coréia do Norte, Coréia do Sul, Cuba, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Eslováquia, Estônia, Finlândia, França, Geórgia, Grécia, Holanda, Hungria, Inglaterra, Irã, Islândia, Israel, Itália, Iugoslávia, Japão, Letônia, Lituânia, México, Mongólia, Noruega, Paraguai, Polônia, Portugal, República Tcheca, Romênia, Rússia, Suécia, Tailândia, Turquia, Ucrânia, Uruguai, Venezuela e Vietnã.
Família – Os filhos e a companheira Zélia Gattai
Jorge Amado era casado com Zélia Gattai, também escritora que o sucedeu na Academia Brasileira de Letras. Com ela, Jorge teve dois filhos, João Jorge, sociólogo e autor de peças infantis, e Paloma, psicóloga.
Zélia Gattai é autora das obras “Anarquistas, graças a Deus” (1979), a de maior sucesso, além de “Um chapéu para viagem” (1982), “Senhora dona do baile” (1984), “Jardim de inverno” (1988), “Pipistrelo das mil cores” (1989) e “O segredo da Rua 18” (1991). Muitos dos livros viraram novelas televisivas, tanto de Jorge quanto de Zélia.
Obras
Em se tratando de romance ficcional, Jorge Amado foi o maior escritor
Brasileiro: prova disso, é o reconhecimento por meio do Prêmio Camões, o “Nobel” da língua portuguesa, no ano de 1994. Ele também é o autor que tem o maior número de obras adaptadas para a televisão brasileira. Na lista de sucessos estão às obras “Tieta do Agreste”, “Gabriela”, “Tereza Batista” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, dentre outras. São temas constantes em suas obras os problemas e injustiças sociais, o folclore, a política, crenças e tradições e a sensualidade do nosso povo.
Romances (individuais):
- O País do Carnaval, 1931
- Cacau, 1933
- Suor, 1934
- Jubiabá, 1935
- Mar Morto, 1936
- Capitães da Areia, 1936
- Terras do Sem Fim, 1943
- São Jorge dos Ilhéus, 1944
- Seara Vermelha, 1946
- Os Subterrâneos da Liberdade (3v), 1954 (v. 1:Os Ásperos Tempos; v. 2: Agonia da Noite; v. 3: A Luz no Túnel)
- Gabriela, Cravo e Canela: crônica de uma cidade do interior, 1958
- Os Pastores da Noite, 1964
- Dona Flor e Seus Dois Maridos: esotérica e comovente história vivida por Dona Flor, emérita professora de Arte Culinária, e seus dois maridos — o primeiro, Vadinho de apelido; de nome Teodoro Madureira e farmacêutico o segundo ou A espantosa batalha entre o espírito e a matéria, 1966
- Tenda dos Milagres, 1969
- Teresa Batista Cansada da Guerra, 1972
- Tieta do Agreste: pastora de cabras ou A volta da filha pródiga, melodramático folhetim em cinco sensacionais episódios e comovente epílogo: emoção e suspense, 1977
- Farda Fardão Camisola de Dormir: fábula para acender uma esperança, 1979
- Tocaia Grande: a face obscura, 1984
- O Sumiço da Santa: uma história de feitiçaria, 1988
- A Descoberta da América pelos Turcos ou De como o árabe Jamil Bichara, desbravador de florestas, de visita à cidade de Itabuna, para dar abasto ao corpo, ali lhe ofereceram fortuna e casamento ou ainda Os esponsais de Adma, 1994
- O Compadre de Ogum, 1995
Em parceria:
- Lenita (novela), com Edison Carneiro e Dias da Costa, 1929
- Descoberta do mundo (literatura infantil), com Matilde Garcia Rosa, 1933
- Brandão entre o mar e o amor, com José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz, 1942
- O mistério de MMM, com Viriato Corrêa, Dinah Silveira de Queiroz, Lúcio Cardoso, Herberto Sales, Rachel de Queiroz, José Condé, Guimarães Rosa, Antônio Callado e Orígines Lessa, 1962
Novelas
- A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, 1959
- A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua ( publicada juntamente com Os Velhos Marinheiros ou A completa verdade sobre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, in Os velhos marinheiros, 1961
- Os Velhos Marinheiros ou A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, 1976
Literatura Infanto-Juvenil:
- O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: uma história de amor, 1976
- A Bola e o Goleiro, 1984
- O Capeta Carybé, 1986
Poesia:
- A Estrada do Mar, 1938
Teatro:
- O Amor do Soldado, 1947 (ainda com o título O Amor de Castro Alves), 1958
Contos:
- Sentimentalismo, 1931
- O homem da mulher e a mulher do homem, 1931
- História do carnaval, 1945
- As mortes e o triunfo de Rosalinda, 1965
- Do recente milagre dos pássaros acontecido em terras de Alagoas, nas ribanceiras do rio São Francisco, 1979
- O episódio de Siroca, 1982
- De como o mulato Porciúncula descarregou o seu defunto, 1989
Relatos autobiográficos:
- O menino grapiúna, 1981
- Navegação de cabotagem: apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei, 1992
Textos autobiográficos:
- ABC de Castro Alves, 1941
- O cavaleiro da esperança, 1945
Guia/Viagens:
- Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e de mistérios, 1945
- O mundo da paz (viagens), 1951
- Bahia Boa Terra Bahia, 1967
- Bahia, 1970
- Terra Mágica da Bahia, 1984.
Documento político/Oratória:
- Homens e coisas do Partido Comunista, 1946
- Discursos, 1993
Livro traduzido:
- Dona Bárbara (Doña Barbara), romance do venezuelano Rómulo Gallegos, 1934
Nossas dicas!
Livros com o tema Candomblé:
Bahia de Todos os Santos
Neste livro, Jorge Amado compõe um guia das ruas e dos mistérios de São
Salvador da Bahia de Todos os Santos, Cidade do Estado da Bahia, fundada em 1549. O autor descreve os bairros proletários e os nobres, as feiras e os mercados, as inúmeras ladeiras e ruas da cidade, e apresenta as praias locais, como Itapuã, Amaralina, Pituba e o Farol da Barra.
Além de traçar a cartografia do lugar, faz uma crônica dos costumes da população baiana discorrendo sobre as igrejas, os terreiros, as comidas típicas, a lavagem da igreja de Nosso Senhor do Bonfim, as homenagens a Iemanjá e a São João, entre outras festas populares. O autor valoriza a mestiçagem do povo baiano e as contradições de seu espírito libertário e conservador.
Jubiabá
“Jubiabá” é um livro escrito na década de 1930. Seguindo uma das características principais do escritor Jorge Amado, “Jubiabá” tem aspectos modernistas. Este livro é um dos primeiros escritos por ele. “Jubiabá” conta a história do negro Antônio Balduíno, descendente de escravos, nascido e criado no morro do “capa-negro”, um dos refúgios na periferia de Salvador, onde os negros se abrigaram após a abolição da escravatura e a posterior falta de apoio político. Ligado ao Candomblé, Jubiabá narra as aventuras na cidade de Salvador e outros lugares.
Filme:
Capeta Carybé (1966), de Agnaldo Siri Azevedo (curta metragem)
O filme é uma adaptação do livro “O Capeta Carybé”, de Jorge Amado, sobre o artista plástico Carybé, nascido na Argentina e que se tornou o mais baiano dos brasileiros. O filme “O Capeta Carybé” é um documentário dirigido por Agnaldo Siri rodado no Brasil. O roteirista da obra é Chico Drummond.
Dentre os atores, no elenco estão os já falecidos Nélson Dantas e Harildo Deda.
3 Obás de Xangô (2025) é um documentário que celebra a amizade e a obra de Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé, destacando sua relação com a cultura baiana e o candomblé.*
O documentário, dirigido e roteirizado por Sérgio Machado, explora a trajetória artística e pessoal de Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé, mostrando como suas obras se entrelaçam com a espiritualidade, a cultura popular e a identidade da Bahia, especialmente através do candomblé, da presença do mar e da força das mulheres na sociedade local. O filme inclui participações de amigos, familiares e personalidades culturais, como Gilberto Gil, Mãe Stella de Oxóssi e Zélia Gattai (já falecidas), entre outras personalidades.
O título "Obá de Xangô" é uma honraria criada em 1936 por Mãe Aninha, fundadora do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, e concedida para pessoas que atuam como protetores do templo. Amado, Caymmi e Carybé receberam essa distinção de Mãe Senhora, terceira Iyalorixá do terreiro, reconhecendo sua contribuição para a arte e a espiritualidade baiana. O documentário mostra como essa relação com o candomblé influenciou suas obras literárias, musicais e plásticas, consolidando um imaginário cultural que ainda inspira artistas contemporâneos
O filme também apresenta imagens de arquivo, entrevistas e registros de festas e convivências nos terreiros, além de destacar a perseguição às religiões de matriz africana, reforçando a importância da preservação cultural e da resistência do povo do candomblé. A produção recebeu diversos prêmios, incluindo o Grande Otelo de Melhor Longa-Metragem Documentário, o Redentor de Melhor Documentário no Festival do Rio e o Prêmio do Público de Melhor Documentário Brasileiro na Mostra de São Paulo, sendo eleito em 2024, como melhor filme pelo Júri Popular da Mostra de Cinema de Tiradentes. (com atualização da internet)
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