Quando se fala em religiões de matriz africana no Brasil, dois nomes costumam aparecer imediatamente: Candomblé e Umbanda. Embora tenham enorme importância na história religiosa e cultural do país, eles estão longe de representar toda a diversidade existente.

Uma pesquisa realizada pelo então Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome mostra justamente essa multiplicidade.

A Pesquisa Socioeconômica e Cultural de Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiros, realizada em 2010 e publicada em 2011, investigou comunidades nas regiões metropolitanas de Belém, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre. O levantamento identificou 17 diferentes manifestações religiosas afro-brasileiras e afro-indígenas entre as comunidades pesquisadas.

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Entre elas estavam Candomblé, Umbanda, Xangô, Batuque, Vodum, Tambor de Mina, Mina de Caboclo, Linha Cruzada, Umbandomblé, Jurema, Toré, Quimbanda, Omolocô, Catimbó, Pajelança, Nagô e Pena e Maracá.

O resultado ajuda a desmontar uma visão simplificada sobre a religiosidade afro-brasileira.

Uma diversidade que também é regional

A pesquisa mostrou que as tradições não estão distribuídas da mesma maneira pelo país.

Em Recife e região, por exemplo, a Jurema apareceu com grande presença. Segundo o levantamento, mais de 70% dos terreiros pesquisados naquela região declararam praticá-la. O estudo também encontrou referências ao Xangô e ao Nagô, denominações historicamente associadas à religiosidade afro-pernambucana.

Em Porto Alegre, o Batuque aparece com forte presença, enquanto em Belém e região o levantamento identificou manifestações como Tambor de Mina, Mina de Caboclo e Pajelança.

Essa diversidade regional não é um detalhe.

Ela revela que a formação das tradições afro-brasileiras aconteceu em diferentes territórios, em contato com histórias africanas, indígenas e com as experiências sociais desenvolvidas no Brasil.

Um mesmo espaço pode reunir mais de uma tradição

Outro dado interessante encontrado pela pesquisa é que a diversidade não acontece apenas entre diferentes casas.

O levantamento constatou a convivência de duas ou mais formas religiosas em um mesmo terreiro. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores perguntaram às lideranças qual era a religião principal da casa e quais outras formas religiosas também eram praticadas naquele espaço.

Isso ajuda a entender por que classificações rígidas nem sempre dão conta da realidade vivida pelas comunidades.

Uma casa pode possuir uma tradição predominante e, ao mesmo tempo, manter relações com outras formas de culto, conhecimentos e práticas.

É uma característica que torna ainda mais importante ouvir as próprias comunidades quando se fala sobre sua identidade religiosa.

E onde entra a Quimbanda?

A Quimbanda é uma das manifestações identificadas pela pesquisa, assim como Jurema, Batuque, Tambor de Mina e outras tradições.

Sua presença no levantamento também é importante porque a Quimbanda costuma ser alvo de interpretações externas e associações preconceituosas.

Colocá-la simplesmente como sinônimo de “mal” ou de “demônio” é uma simplificação que não explica a diversidade de práticas e concepções encontradas no campo religioso brasileiro.

Da mesma maneira, não é adequado explicar todas as tradições afro-brasileiras utilizando conceitos de uma única religião.

Cada tradição possui sua própria história, seus fundamentos, suas entidades, seus conhecimentos e suas formas de transmissão.

Muito além de uma questão religiosa

A pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social não investigou apenas quais religiões eram praticadas.

O estudo também procurou compreender aspectos como alimentação, condições das cozinhas, situação socioeconômica, infraestrutura, características dos espaços religiosos e relações comunitárias. Foram identificadas 4.045 casas ativas nas quatro regiões metropolitanas pesquisadas.

Isso demonstra que falar dessas comunidades significa falar também de cultura, segurança alimentar, economia, território, memória e redes de solidariedade.

Os terreiros e demais espaços de culto aparecem, nesse contexto, não apenas como locais de prática religiosa, mas como lugares onde conhecimentos e relações comunitárias são preservados.

Um Brasil de muitos caminhos

Talvez uma das principais contribuições desse levantamento seja mostrar que não existe uma única experiência afro-brasileira.

Há diferentes caminhos, tradições e histórias.

Há o Batuque, o Tambor de Mina, a Jurema, o Xangô, a Quimbanda, o Omolocô, o Candomblé, a Umbanda e tantas outras manifestações que fazem parte de uma história muito mais ampla.

E mesmo essa lista não deve ser interpretada como definitiva. O próprio levantamento trabalhou com categorias declaradas pelas lideranças entrevistadas e encontrou outras formas de identificação e combinações entre tradições.

Conhecer essa diversidade é também uma forma de combater o racismo religioso.

Porque, antes de tentar explicar uma tradição a partir de outra, é preciso reconhecer que existem muitas vozes, muitas memórias e muitos modos de viver a espiritualidade.

O axé brasileiro não cabe em uma única definição.

E talvez seja justamente essa diversidade que conte uma das histórias mais importantes sobre a formação cultural do Brasil.